Sociedade das nações
Chegam da China, do Peru, da Síria ou do Senegal. O Instituto Politécnico
de Bragança apostou forte na captação de alunos estrangeiros
- este ano receberá l 200, de 25 países diferentes
Descontraído, de andar gingão,
Hebert Camilo responde com
um sorriso à admiração de Olga
Padrão, secretária da direção do
Instituto Politécnico de Bragança (IPB), por
andar de chinelos de enfiar o dedo num dia
chuvoso e frio. Além do acentuado sotaque
de Minas Gerais, o jovem de 21 anos, chegado
em setembro ao nordeste transmontano,
veio equipado com roupa leve, pouco apropriada
para o rigoroso inverno que se aproxima.
«Tem problema, não», garante.
Apesar das dificuldades com o termóstato,
o jovem estudante do 3.° ano de Engenharia
Agronómica está a adorar a experiência portuguesa.
De tal forma que, dois meses após a
chegada a Bragança, já começou a tratar das
burocracias para prolongar a estadia inicialmente
prevista para um semestre, mas que ele
agora quer estender a dois. «A cidade é pequena
mas recebe bem a 'gente' e estou gostando
muito da experiência. O Instituto está bem
equipado e as aulas são muito interessantes»,
adianta, em jeito de justificação. Hebert chegou a Bragança ao abrigo de um protocolo com
o Instituto Federal do Norte de Minas Gerais.
No seu caso, o programa de intercâmbio prevê
que o IPB se responsabilize pelo alojamento e
refeições, enquanto a sua universidade de origem
lhe assegurou as passagens aéreas e uma
bolsa de três mil euros por semestre.
O jovem mineiro é apenas um dos 650 alunos
estrangeiros - num universo de cerca
de seis mil estudantes - que atualmente frequentam
o IPB. Números que pecam ainda
por defeito uma vez que há muitos inscritos
ainda à espera de visto para fixar residência
em Trás-os-Montes - os casos mais complicados
têm sido os de alunos provenientes
de países africanos que foram afetados pela
epidemia de ébola, como a Libéria e a Serra
Leoa, o que fez complicar as burocracias. Além
disso, tal como sucedeu em anos anteriores,
e a avaliar pelas inscrições já efetuadas e os
processos em fase de aceitação, é de esperar
que no segundo semestre o número de alunos
chegue aos 1200 (mais 300 que no ano
passado). Números impressionantes, numa
cidade com pouco mais de 23 mil habitantes e
onde, segundo um estudo recente encomendado
pelo Conselho Coordenador dos Institutos
Superiores Politécnicos, o peso desta
instituição na economia local é superior a 11 por cento do Produto Interno Bruto - o valor
mais elevado do País.
Bragança lidera o 'ranking' dos politécnicos e cobra as propinas mais baixas do País
O IPB está atualmente no ranking das dez melhores instituições de
ensino superior a nível nacional - o primeiro
entre os politécnicos - e, em boa medida, isso
também contribui para facilitar a captação
de alunos através de convénios com instituições
espalhadas pelo mundo fora. Além dos
que chegam ao abrigo do programa Erasmus,
provenientes da União Europeia, o maior contingente
vem de paragens tão diversas como
o Turquemenistão, China, Timor-Leste, Paquistão,
Síria, México ou Peru, só para referir
alguns dos mais distantes dos 25 países ali representados.
Para o sucesso dessas «formas
pró-ativas ou menos ortodoxas», na expressão
do vice-presidente Luís Pais, contribuem
ainda as propinas mais baixas (755 euros, para
estudantes de licenciatura nacionais, e 1100,
para os internacionais) e o facto de haver já
vários cursos lecionados exclusivamente em
inglês.
Hospitalidade transmontana

Exemplo sólido de uma integração feliz é o de
Auro dos Santos. O cabo-verdiano, de 24 anos,
chegou a Bragança em 2009 e diz que se sente
em casa, «tal como todos os alunos africanos»,
os maiores contribuintes da larga comunidade
estrangeira do IPB. A Associação
de Estudantes Africanos representa
peno de 400 alunos, a maioria
deles de Cabo Verde, mas também
muitos são-tomenses e angolanos.
Sentindo-se em casa, já criaram uma
equipa de futebol que alinha nos distritais
de Bragança, uma equipa de
futsal feminina, um grupo de dança,
um conjunto musical (AfroBanda)
e, para breve, prometem um grupo
de teatro. Além disso, explica Auro,
que preside à associação, «ajudamos
muitos alunos a tratar de toda
a burocracia para aqui chegar». A terminar o mestrado em Tecnologia
Biomédica, depois de ter completado a
licenciatura, vê aproximar-se a passos largos
a hora de regressar a Cabo Verde e já começa a
sentir saudades. «A minha adaptação foi cinco
estrelas, nunca tive problemas e, se é verdade
que quero ajudar ao desenvolvimento do meu
país, também é certo que Bragança vai ficar
sempre no meu coração.»
Tal como Auro dos Santos, também os habitantes
da cidade se afeiçoaram e habituaram já
à presença dos alunos estrangeiros.
A chegada de sangue-novo estava a fazer falta,
para dinamizar o comércio da cidade. Aos 75
anos, Vitalino Miranda e a mulher, Maria de
Lurdes, mantêm a pequena mercearia, com
quase meio século, de portas abertas, apenas
porque funciona no rés-do-chão da sua casa
e não pagam renda. «O centro histórico hoje
está quase deserto. Levaram daqui os serviços
e as pessoas começaram também a sair porque
as casas estão velhas... e as que foram arranjadas
têm rendas muito caras», considera Vitalino. Hoje, são os jovens da renovada residência
universitária os poucos clientes que têm.
«Nós queremos é vê-los cá, e que levem umas
comprinhas. Mas a gente sabe que eles também
não trazem dinheiro à larga e são muito
regrados. Perguntam sempre pelo preço antes
de levar alguma coisa... não é verdade?», atira.
para Alexandre Ximenes, um jovem timorense
de 19 anos, mais fluente em inglês do que
em português, que consente com um sorriso
envergonhado. Acabou de chegar a Bragança,
para iniciar a licenciatura em Engenharia
Informática, com uma bolsa de estudo concedida
pelo Institut of Business de Díli, com
quem o IPB tem uma parceria, e também ele
está fascinado com a cidade. «As pessoas são
muito simpáticas», arrisca, num português razoável,
ao lado de Peltier Aguiar, um angolano
de 26 anos, estudante de Agroecologia e que
vive com ele na residencial Domus. É o africano que hoje faz de cicerone, acompanhando o
timorense às compras. «Quando precisamos
de alguma coisa vimos aqui à mercearia ou então
vamos à loja do senhor Valdemar. Mesmo
que tenha a porta fechada, basta tocar à campainha
que ele atende-nos a qualquer hora»,
explica.
Gil Gonçalves, um dos atarefados elementos
do Gabinete de Relações Internacionais,
encarregue dos processos burocráticos dos
alunos estrangeiros, não se mostra surpreendido
com a boa reação dos habitantes. «Somos
transmontanos, é a nossa forma de ser.
Aqui, primeiro mandamos entrar; só depois
perguntamos quem é.»
Publicado em 'Visão' nº1133, 20 a 26 novembro 2014.