
Foram 34 as vozes que em coro entoaram
canções de Natal e do cancioneiro português
para levar um pouco da magia da
quadra mais festivado inverno aos doentes
dos cuidados paliativos do Hospital de
Macedo de Cavaleiros.
A música e o canto
eram dos alunos da Escola Superior de
Educação de Bragança (ESE) a emoção foi
de quem ouviu, principalmente dos utentes,
muitos dos quais não poderam passar
o Natal em suas casas. O concerto aconteceu
na passada quarta-feira, 16, naquela
unidade, onde muitos, dada a pouca saúde,
têm poucas oportunidades de lá sair
para ir a concertos ou espetáculos.
Não foi o primeiro, nem será o último,
mas foi especial, talvez por nesta altura os
sentimentos estarem à flor da pele. “É mais
tocante cantar aqui no hospital e , sobretudo
nesta época”, resumiu Catarina Batista,
22 anos, uma das vozes do coro.
Os concertos na Unidade de Paliativos
são possíveis graças a um protocolo entre
a Unidade Local de Saúde do Nordeste
e o Instituto Politécnico de Bragança
que permite que os alunos ali possam fazer
sessões fora do âmbito das aulas. “Da
nossa parte é uma forma de dinamizar a
unidade e permitir aos doentes que não
têm possibilidade física, emocional e social
de ter esta experiências no dia a dia”,
explicou Duarte Soares, médico na unidade,
que diz que o objectivo também passa
por “trazer a sociedade para dentro do
hospital”.
A Unidade de Cuidados Paliativos dispõe
de 17 vagas, 15 da Rede Nacional e duas
do hospital, que estão sempre ocupadas.
Cerca de dois meses após o início deste intercâmbio,
os benefícios da musicoterapia
são visíveis. “Ainda não temos dados objetivos
para medir, mas avaliamos aquilo
que se passa na nossa unidade tanto com
os doentes como com as famílias. Denota-
se uma motivação e uma alegria diferentes
ao retirar o foco da doença e dos
problemas em si para outra qualidade de
vida e outra dimensão, que é social e espiritual
por parte dos doentes. Para aproveitarem
o tempo que lhes resta”, referiu
Duarte Soares.
Este tipo de iniciativa deverá ser alargada a
outras áreas, como o teatro, a fisioterapia e
contactos com familiares emigrados. “Trazem
uma dinâmica diferente à unidade.
Nos últimos cinco anos já se observa uma
mudança de mentalidade em relação aos
cuidados paliativos”, acrescentou o médico.
A unidade de Macedo de Cavaleiros
era vista como um local de morte, porque
os doentes eram deslocados para lá tarde.
“Já pouco se poderia a fazer”, admitiu
Duarte Soares. “Estamos a mudar isso. Os
doentes são referenciados mais cedo e temos
mais tempo para trabalhar com eles e
passa a unidade a ser de convívio em que
os doentes em situações difíceis também
partilham necessidades”.
Serafim dos Santos Lopes, 85 anos, natural
de Valpaços, foi um dos doentes que se
encantou com a música. “Gosto de ver a
juventude”, contou.
Vasco Alves, coordenador do departamento
de Educação Musical da ESE, explicou
que havia um compromisso para levar o
coro daquela escola. “Os alunos estão envolvidos
e conscientes da circunstância específica
que são os cuidados paliativos. As
atuações têm sido gratificantes pelo que sabemos
da parte dos doentes, torna-se evidente
que é um momento agradável, que
atenua o sofrimento que atravessam”, referiu
o docente. Para os músicos esta também
é uma experiência diferente e compensadora.
“ Saímos daqui com o coração
cheio e com o sentido de dever cumprido.
Nós temos que adaptar a forma como
atuamos, o repertório que executamos tem
que ser adequado às necessidades específicas”,
acrescentou o docente.
Publicado em 'Mensageiro'.