João Sobrinho Teixeira - Presidente do IPB
De acordo com os últimos dados de acesso ao
ensino superior, a engenharia foi uma das áreas
menos procuradas pelos candidatos, existindo
mesmo situações de cursos sem qualquer aluno
colocado. A redução do número de vagas face a
2012 não impediu que as instituições perdessem
alunos, com uma quebra mais acentuada nos institutos
politécnicos. Que análise faz desta situação?
Quais as implicações imediatas e a longo
prazo?
Podia fazer um discurso político no sentido de
dizer duas ou três coisas com maior ou menor grau
de banalidade e responder à questão, mas é melhor
ser sincero e dizer as coisas como elas são.
A diminuição de vagas é inoquoa. As vagas
foram diminuídas nas instituições que já não preenchiam
vagas em anos transatos e isto só teria efeito
nas instituições que preenchem as vagas todas.
Em relação à atratividade não acho que haja
uma redução. Acho que hoje em dia a engenharia
é vista como uma qualificação que obtem um
menor nível de empregabilidade. Em Portugal fala-se
da reindustrialização da economia portuguesa e
percebe-se que o caminho para um retorno mais
produtivo que alguém pode ter é qualificando-se na
área de engenharia. Portanto o problema não está
na diminuição da atratividade na área da engenharia,
aliás atualmente tem mais atratividade para os
estudantes que no passado.
Houve uma altura em que se verificou que outras
profissões, em que havia uma perspetiva a nível de
emprego público praticamente assegurado, tinham
uma atratividade maior. Recordo por exemplo o optar
pelo ensino da matemática em vez da engenharia.
Também na área da saúde sempre houve a perspetiva
de que quem tirasse uma formação na área
assegurava um emprego público. Portanto, a engenharia
como estava ligada a uma atividade privada
ou semi-privada podia ter uma componente de
retorno financeiro maior, mas também uma maior
componente de risco. Neste momento, a visão de
que com uma formação se tem acesso a um
emprego público com remuneração aceitável não
existe. Contudo, em termos de perspetiva sobre a
empregabilidade, com exceção da medicina, a engenharia
é vista como a profissão que mais retorno
pode ter.
A perceção que tenho é que um bom aluno que
consegue ultrapassar as diversas etapas de acesso
ao ensino superior, primeiro tenta a medicina e
depois a engenharia. A questão é que, infelizmente
para o país, há poucos alunos a conseguir acabar
as disciplinas de matemática e físico-química. A
atratividade de engenharia é grande e os alunos
gostariam de ir para engenharia, o problema é que
não conseguem entrar.
E porque é que não conseguem?
Não sei o que está mal, mas há nitidamente um
desfasamento entre o que é ensinado e apreendido
ao longo dos 12 anos e o que é avaliado numa
prova. Das duas uma: ou a prova se encontra desfasada
face ao que é ensinado mas está certa face
ao que é exigido e o problema está naquilo que se
ensina nos 12 anos, ou a prova apresenta um nível
superior de exigência face ao que é razoável para
tirar um curso e a aprendizagem conseguida nos 12
anos. Se fizermos esta análise podemos estar a contribuir
para que no futuro haja mais gente em engenharia.
Não estou com isto de defender uma ou outra,
estou é a mostrar a incongruência do sistema. Se
analisarmos o número de alunos que entrou em
2005 no ensino superior este não chegou a 40 mil,
já o numero dos que entraram em 2007/2008/2009
centra-se entre os 54 a 56 mil, ou seja mais quinze
mil alunos, a partir daí notamos uma redução no
número de entradas que este ano voltou a aproximar-
se do ano de 2005. Para mim isto tem a ver
com a maior ou menor dificuldade da prova de
acesso colocada aos alunos.
Penso que temos de discutir de que forma
vamos conseguir aumentar o nível de aprendizagem
do sistema de ensino e verificar se estamos ou não
no caminho da melhoria continua. Os últimos indicadores
dizem que sim, que o conhecimento dos
alunos em matemática e química tem aumentado
relativamente ao que tem acontecido em outros países.
Há ainda que ter em atenção que o aumento
da dificuldade no exame por si só não gera um
aumento da aprendizagem dos alunos. O exame é
um dos meios para fazer a avaliação dos alunos e é
um fator positivo, mas a reprovação em si própria
não pode ser uma cultura. Ou seja, o professor e o
sistema não é melhor quanto maior a dificuldade
que resulte num maior nível de reprovação, pelo
contrário é melhor quanto maior for no ensino de
aprendizagem.
Temos ainda de ter orgulho na engenharia que
é feita, seja ela com alunos que entraram com mais
dificuldade, seja com alunos que entraram com
menor dificuldade. Com uma ou com outra verificamos
um bom nível de empregabilidade no estrangeiro.
Quando se fala dos engenheiros portugueses
que vão para a Alemanha, Suécia, Inglaterra, em
situação de concorrência com os engenheiros espanhois,
italianos, estes não têm preferência por
serem portugueses e se estão a ser bem aceites é
sinal que há uma qualificação boa que é feita em
Portugal. Acho que o sistema, as instituições e os
alunos estão a conseguir responder positivamente.
Temos também de aceitar que a entrada de alunos
com um sistema facilitado se traduza num
maior insucesso nos primeiros anos de engenharia.
Todo o aluno que acaba o secundário na Bélgica
pode candidatar-se ao ensino superior sem que haja
um filtro. O nível de insucesso aproxima-se dos 40%
no 1º ano mas é assumido pela sociedade pois o
objetivo da Bélgica é ter muita gente qualificada no
superior. Conseguem ainda que os jovens tenham
mais motivação para continuar a estudar estando já
no superior do que se efetuassem um filtro à
entrada que vai fazer com que não consigam entrar
e depois desistam de o fazer.
Voltando à questão dos exames, até agora há
uma boa resposta da engenharia porque a empregabilidade
dos engenheiros fora do país é bem
aceite e mostra a sua capacidade. Portanto, o que
era importante verificar é se o que está mais desfasado
é a aprendizagem ou se é a dificuldade do
exame. Podiamos dar a nossa prova a alunos
estrangeiros e verificar a resposta deles mas ninguém
tem coragem de colocar isto em cima pois
têm medo de parecer pouco exigentes inteletualmente.
O resultado disso é que o próximo ano letivo
vai ser pior nas entradas. O número de jovens em
engenharia tem vindo a reduzir, ou seja o efeito do
aumento da dificuldade tem-se traduzido na exclusão
das pessoas e não no aumento da aprendizagem
o que leva os jovens a desistir dos cursos de
engenharia e a seguir para cursos com pouca
empregabilidade, que o país não precisa mas que
é aquele que facilita a entrada.
Daqui a uns anos vamos ver o que vai acontecer
quando estiver muita gente na área das ciências
sociais, da comunicação, que não dão resposta em
termos de produtividade do país.
De que forma se pode combater esta situação?
Que estratégias se podem acionar?
Como referi, uma das formas seria olhar para a
questão dos exames e analisar. Outra seria fazer uma
demonstração das potencialidades de uma formação
em engenharia.
Isso entronca numa questão essencial que é o
papel da OE na visibilidade da engenharia. A OE
quer ter um papel mais ativo neste campo. como
podem existir sinergias entre instituições no sentido
de facilitar o reconhecimento profissional?
Mais que ninguém cabe à OE o desenvolvimento
da visibilidade da engenharia. Deve ser a
própria Ordem a referir os casos de sucesso que
existem e fazer uma apologia do nível da engenharia
portuguesa que é conseguido e que dá cartas
em todo o mundo.
Na minha opinião este papel tem de ser assumido
em conjunto com as universidades que também
procuram perceber o caminho que seguem
os seus formados. Mostrar a oferta que existe e a
diferenciação entre as instituições é bastante positivo,
não só para os alunos como para uma apologia
social da engenharia portuguesa.
Isto não significa que se vai resolver alguma
coisa no número de entradas para os cursos de
engenharia. Não devemos ficar presos na questão
dos exames, mas fazer a apologia nacional e internacional
do nível da engenharia portuguesa. Se
mostrarmos a enorme capacidade de resposta que
os nossos jovens estão a ter no país e no estrangeiro
temos uma boa carta de recomendação e
haverá aqui uma dinâmica positiva para que mais
jovens enveredem pela área da engenharia, mas
volto a referir que não é o suficiente. Estes dois
pontos, valorização da profissão e exames de
acesso, devem ser vistos numa lógica de complementariedade.
A Engenharia civil foi dos cursos mais penalizados.
Na sua opinião o que contribuiu para isso?
A crise explica tudo?
Acho que sim. Não vejo mais nenhuma razão
para que engenharia civil tenha tido uma quebra
maior que as outras engenharias a não ser a visão
de que sendo a Engenharia Civil uma atividade
empresarial muito ligada a ciclos económicos de
crescimento ou recessão e como as obras públicas
pararam e a construção deixou de existir a visão
que passou para a opinião pública foi de recessão
económica e de grande nível de desemprego. Portanto
isto deveu-se muito em resultado da crise e
não por menor capacidade das pessoas em engenharia
civil. O nível da Engenharia Portuguesa sempre
foi considerado muito bom e não é agora que
o vai deixar de ser. O que me admira é que uma
área ligada, a Arquitetura, não tenha tido a mesma
resposta, e tem um nível de empregabilidade mais
baixo que a engenharia civil.
Há quem afirme que formação em engenharia civil
estava muito vocacionada para o emprego interno,
enquanto outras engenharias tinham uma visão
mais alargada para o nível internacional. Partilha
desta opinião? Acha que pode ser um condicionante?
Pode ser na empregabilidade que existia e na
sua repentina diminuição. Ao longo dos anos a área
que tinha mais emprego era a civil, ou seja , o nível
de crescimento económico que o país tinha e o
investimento em obras públicas era muito grande e
portanto os engenheiros civis eram muito requisitados.
O crescimento económico que o país estava a
ter ao nível das obras públicas, pela introdução dos
fundos comunitários e mesmo ao nível privado era
enorme e desta forma os alunos eram todos absorvidos.
Não se estava a prever a crise em que o país
podia entrar.
O mercado interno absorvia tudo e portanto não
havia a necessidade de introduzir outras valências
em que não se via utilidade. Claro que agora isto tem
de ser repensado. A área da engenharia civil tem
ainda a dificuldade de estar muito ligada à legislação
e às regras estabelecidas em cada país e que são
diferentes, portanto obriga a outro tipo de preparação.
As outras engenharias são mais ligadas a um
processo universal e não estão tão sujeitas às normas
de cada país.
Não podendo generalizar esta situação a todas as
áreas de engenharia, quais os cursos que considera
com maior potencial na área de emprego e
especificamente aqui no politécnico?
Na área da informática o potencial é grande e a
engenharia mecânica é hoje em dia dos cursos mais
pretendidos. Os cursos de gestão industrial são também
muito adequados pois estão muito adaptados
para dar resposta às necessidades do país.
O IPB tem em atenção todas estas variáveis e
prepara os alunos para a realidade da região e do
país. Neste aspeto uma engenharia com fator de
universalidade tem uma maior empregabilidade. Ao
nível da agronomia também temos verificado um
bom nível de empregabilidade. Apesar da área agricola
ser uma área pouco estimada e normalmente
pouco pretendida começam a notar-se as suas
potencialidades e por isso começa a ser procurada.
Por exemplo o vinho foi o sector agrícola que mais
cresceu e mais evoluiu, muito graças à enologia e à
capacidade de se fazer vinho.
A multiplicidade de cursos de engenharia existente
a nível nacional será coadunante com as exigências
do mercado europeu? E com os restantes?
Acho que deve haver uma regulação das áreas
de engenharia. É bom para os jovens e para o sistema.
A criação de cursos atípicos da engenharia
relaciona-se com a tentação das instituições em
captar os jovens para a área da engenharia afirmando-os como uma engenharia diferente e com
uma maior empregabilidade. Contudo o que se verifica
é que a maior parte das engenharias são na sua
essência repetidas e isso leva a uma descaraterização
do próprio grau e nem é benéfico para o país.
Sendo do conhecimento público que as instituições
de ensino superior passam por momentos
conturbados devido à diminuição de financiamento
e restrições de autonomia de gestão. como
é que o IPB tem reagido a esta situação?
Temos de ser sinceros. A partir do momento em
que há uma redução do financiamento, cerca de
30% ao longo dos últimos anos, a qualidade do
ensino é afetada. Também não era aceitável para
ninguém que no meio de um esforço tão grande
que o país está a fazer o ensino superior passasse
à margem. É necessário perceber que há menos
qualidade no setor da saúde como há no ensino
superior, que resulta da quebra no financiamento,
temos de ver de que forma vamos atuar.
No IPB temos procurado aumentar as receitas
próprias, conseguir projetos de investigação e cativar
alunos estrangeiros. Neste momento num universo
de 7000 alunos cerca de 2000 são alunos
estrangeiros o que demonstra a qualidade da instituição.
Bragança tem um custo de vida baixo, uma
boa qualidade de vida e uma grande vantagem de
internacionalização, estas razões fizeram com que
uma das opções estratégicas do Instituto fosse a
internacionalização.
Na sua opinião, de que forma a Engenharia portuguesa
pode contribuir para solucionar a crise económica
financeira que se vive no país?
A Engenharia Portuguesa é dos setores com
maior capacidade de resposta. Portugal tem uma
grande capacidade ao nível do sector agricola. O
turismo é também uma das áreas com maior capacidade
de expansão. Contudo, apesar das grandes
potencialidades temos de ser realistas e admitir que
não é suficiente. O país para ter uma resposta económica
tem de ter indústria e para isso tem de ter
engenharia. O país não vai dar resposta à crise só
com a agricultura e o turismo, setores em crescimento,
tem de produzir do ponto de vista industrial.
A solução passa pela reindustrialização do país.
Também tenho algum receio que com poucos
engenheiros deixemos de ter engenheiros com
capacidade de resposta e proatividade, pois ao
serem poucos vão ter um mercado facilitado e
isso resulta numa menor qualidade e exigência da
engenharia. Será que estamos a qualificar o
número de engenheiros que o país irá precisar
para a reindustrialização?!
Como tem visto a atuação da OE no exercício da
profissão? As engenharias designadas “clássicas”
são as que têm mais atos regulados pela legislação
nacional. Não deverão os atos de outras engenharias
ser também objeto de regulação/reconhecimento?
Era bom que houvesse um exercício corporativo,
no bom sentido, da atividade da engenharia
para garantir uma maior visibilidade. A OE, por
causa da regulação, foi sempre muito mais orientada
para a questão da engenharia civil, eletrotécnica
e mecânica, contudo não me parece que
seja por um acréscimo de regulamentação que se
deve caminhar.
Uma intervenção construtiva da OE, até no processo
formativo dos engenheiros, uma representatividade
corporativa, uma transmissão do valor
da engenharia que não fique só na regulamentação
das engenharias clássicas e a afirmação da
engenharia portuguesa em outros países era
muito positivo. A regulamentação deve existir mas
deve haver uma representatividade, uma interação
com as instituições de ensino no caminho a
seguir e numa afirmação do valor da engenharia
em Portugal e no estrangeiro.
Publicado em 'INFO nº32'.